Se você tem cerca de 30 anos certamente passou parte de sua infância jogando Sonic no Mega Drive. Caso contrário, pelo menos conheceu muito bem a mascote da Sega na era 16-bits – não nos primórdios, já que o console, lançado em 1988 no Japão, só recebeu o ouriço azul três anos depois, em 1991. Sonic sempre foi amado pelos fãs, mas quando os consoles começaram a evoluir, a franquia, com fortes raízes no ambiente 2D, sofreu horrores ao passar para ambientação 3D. Vários episódios esquecíveis, e cheios de bugs e elementos que quebravam a experiência. A Sega então resolveu investir novamente naquilo que o personagem sempre fez de melhor: correr em um game de plataforma com deslocamento lateral.
 |
| "Vamos fugir, pra outro lugar baby" |
Sonic 4: Episode I foi uma tentativa louvável de relembrar as raízes, embora tenha esbarrado em estranhos e inaceitáveis problemas para a era em que nos encontramos. Teria o Sonic Team esquecido como se faz um bom jogo com ambientação 2D? A ajuda da Dimps, que acertou em cheio com Sonic Advance e Rush para portáteis, não fo suficiente? Pior para eles é que um grupo de fãs tinha acabado de lançar na internet um remake de Sonic 2 lindo e bem trabalhado que dava um banho visual no jogo oficial da Sega. Estaria Sonic 4 com seus dias contados? A Sega tinha planos de lançar episódios em sequência, mas levou meses para falar algo sobre Episode II. Eis que quase dois anos depois, o título é lançado, e parece que eles andaram ouvindo algumas das reclamações dos fãs com relação ao primeiro.
São vários elementos que logo se notam quando se começa o game. O primeiro deles é que o visual está um pouco melhor que o primeiro. Não chega a ter a mesma qualidade do remake (ah, esses fãs), mas as fases possuem um acabamento mais agradável, com os cenários de fundo mais animados, cheios de objetos em movimento. A animação de Sonic e Tails está mais suave e um pouco menos travada que no game anterior. Apesar dos avanços, ainda esperávamos mais desse episódio.
O segundo elemento, que já até citamos acima, é que temos Tails, que há muito acompanha nosso amigo azul, mas que por algum motivo fúnebre não foi lembrado no Episódio I. A raposa de duas caudas é peça fundamental na gameplay de Episódio 2, e pode ser controlada por um amigo online ou offline. Em pouco tempo, o jogador é apresentado a todos os movimentos cooperativos da dupla, realizados com um simples botão (X no Xbox, Quadrado no PS3).
Tails pode dar carona a Sonic e subir com ele por alguns segundos. Em algumas passagens a jogadinha é obrigatória, mas há momentos em que ela pode salvar uma vida, principalmente quando Sonic pula para a morte, mas o jogador tem reflexo suficiente de acioná-la. Também com Tails é possível realizar um movimento útil e perigoso, com ambos se juntando para formar uma esfera que percorre o cenário com mais velocidade que a girada individual de Sonic.
 |
| É isso aí, parceiro |
Os movimentos combinados são bacanas no início, mas logo sente-se que eles dão uma "travada" no jogabilidade costumeiramente frenética da série. Isso porque quando acionado, as ações da dupla levam uns dois segundos para serem executadas de verdade, enquanto o jogo fica parado ao fundo. Somando o fato de que elas podem ser requisitadas com mais frequência do que se gostaria, temos aqui um motivo plausível de reclamação para muita gente. Às vezes dá a impressão de que a equipe de produção se reuniu e pensou "esse jogo está rápido demais, as pessoas não estão nem vendo nossos cenários. Temos que criar coisas para travá-las". Isso sem falar em alguns obstáculos como ventos e areia movediça que só retardam ainda mais o jogo.
A física do jogo, ao menos, foi muito melhorada com relação ao primeiro Sonic 4. Os elementos de plataforma que simplesmente paralisavam a gameplay do original (que coisa mais chata ficar subindo naquelas engrenagens lentas) foram mais simplificados, para algo do tipo as fases de Cassino de Sonic 2 – perde-se pouco tempo subindo nelas. Há vários segmentos do jogo, felizmente, que permitem Sonic correr freneticamente pelo cenário, sendo arremessado para o alto ou jogado para os lados pelos velhos bumpers, ganhando mais velocidade ao passar pelos boosters. Não dá para negar que há momentos em que o jogador pode tirar o pé do freio, nos fazendo lembrar da era dourada da série.
Há, infelizmente, alguns problemas um pouco sérios com o jogo. Sonic possui o seu Homing Attack, adquirido na era 3D. Consiste no jogador apertar o bolão de pulo no alto quando houver um alvo marcado na tela – Sonic se projeta instantaneamente no alvo. O problema é que se o jogador pressionar o botão um pouco antes do ápice do pulo de Sonic ou um pouco depois, o golpe falha (apesar do alvo permanecer marcado). Foi uma escolha de design desagradável, que vai fazer Sonic falhar nos momentos mais cruciais. Pior é que quando o golpe sai errado, Sonic dá um leve impulso naquela direção, e às vezes é o suficiente para cair em alguma armadilha ou em um precipício. Há dois momentos na fase do deserto, quando Sonic está preso em uma área com areia sumindo freneticamente e ele não pode ficar parado em que qualquer falha nesses comandos significa ser amassado.
Outro aspecto que nos incomodou – e muito – foram as fases a bordo do avião de Tails. Os comandos ali são bastante duros e truncados, e mover o veículo é complicado. Na luta contra o chefão de fase é quase impossível não ser atingido pelos raios, mesmo usando o movimento giratório. É uma sucessão de erros e acertos que só não irrita mais porque dá para aproveitar o fato de ter sido atingido e de ficar alguns segundos invencível para atingir gratuitamente o rival. Ainda assim não é o método mais tradicional de confronto.
 |
| CORRE NEGADIS |
Esses foram os momentos frustrantes que presenciamos em Sonic 4 Episode II. Apesar das reclamações acima, também tivemos alguns momentos gratificantes. Isso também se dá pelo fato de que o jogo é embalado por um trilha sonora bem animada, bem inspirada na era 16-Bit, inclusive com algumas faixas usando e abusando de "instrumentos sintetizados". A música de batalha contra Metal Sonic parece estar tocando diretamente de um Mega Drive. Ela foi certamente um presente para os saudosistas – e para quem curte chiptune, também. As demais são bem empolgantes e rápidas – e não genéricas e lentas como as de Sonic 4.
Episode II também tem algumas surpresas aqui e ali para quem conseguir lidar com sua gangorra de qualidades e defeitos. Há a presença da fase bônus, que é um minigame inspirado em Sonic 2 de Mega Drive. Sonic e Tails percorrem um caminho em forma de half-pipe coletando a quantidade de argolas pré-determinada para conseguir a clássica Caos Emerald no final. Ao coletar sete, Sonic se transforma em SuperSonic, ficando amarelo e invulnerável. Estranho é ele perder o poder quando pede ajuda de Tails (O.o). Não quiseram fazer a animação para o SuperSonic?
Há um segundo bônus, e esse sim bem mais interessante – mas só para quem adquiriu o primeiro Sonic 4. Quem acompanha a série sabe que Metal Sonic foi derrotado em Sonic CD. O inimigo mecânico foi largado em Little Planet, mas ele retorna em Episode II. Há várias fases onde podemos controlar o antagonista e que explicam como ele conseguiu retornar. É sem dúvidas um presente muito bacana para os fãs da série e que aumenta drasticamente a longevidade do game. Afinal, são quatro capítulos, além dos cinco da campanha principal – quase todos divididos em três atos cada.
Sonic 4 Episode II é realmente uma alternância de prazeres e dores. Vários dos problemas do primeiro foram corrigidos, mas o jogo trouxe alguns outros meio irritantes, como eventos e ações que dão uma travada na gameplay frenética da série. Os movimentos com Tails são bacanas, mas eles deveriam ser acionados mais rapidamente – sem a necessidade de tanta preparação. E Tails deveria ser requisitado menos vezes, já que isso também retarda o game. Há sim algumas coisas boas no jogo como a trilha sonora original e inspirada na era 16-bit, e os vários momentos em que podemos correr velozmente com Sonic sem pensar no amanhã. Uma pena realmente que tenha faltado um pouco mais de inspiração por parte do pessoal de design. Episode II tinha tudo para bombar, mas acaba dando uma derrapada na pista.
[Nota geral: 7,0]